quarta-feira, 17 de março de 2010

Conto

Um livro e sua liçao     

Poucos livros sao como este livro. Aparentemente, igual a muitos. mas se o abrires em qualquer pagina, encontraràs de cada vez um texto diferente.  
  Ouvi que na Asia hà um livro com a mesma propriedade, e que nos Estados Unidos existou outro, comprado a um derviche, mas que, pelo manuseio constante, nao apresenta a singularidade: ficou um livro como os demais, univoco.  
  O exemplar que possuo, nao deixo que ninguem o consulte. zelo por sua integridade, e sò de longe em longe me animo a folheà-lo. E è sempre um assombro.   
  Nao o comprei. Achei-o no porao de uma casa onde sò havia trastes abandonados e teias de aranha. Ao descobrir sua inacreditavel raridade, fiquei tremulo e guardei o segredo ate dos mais intimos.   
  Este livro extraordinario me explicou o sentido do mundo, que varia sempre e nao se subordina a qualquer filosofia. Explicaçao que nao explica, pois sendo infinitas as variaçoes, qualquer delas sò dura o tempo de leitura de uma pagina, ou meia.    
  Nao posso continuar guardando o volume, e nao sei o que fazer dele. tenho medo de abri-lo; medo de rasga-lo; medo que o furtem; medo de ler nele uma sentença aniquiladora, a ultima sentença, depois da qual o mundo deixaria de ser vàrio e, portanto, de existir.       
                                                            ( Carlos Drummond de Andrade)            

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